[Crítica] Good Omens estreia no Prime Video

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Mensagem por KristyAnne em Seg Jun 17, 2019 8:19 pm



O fim do mundo está próximo e as pessoas se preparam para o juízo final. Mas o anjo Aziraphale e o demônio Crowley não estão nada animados com o final dos tempos. Agora, os dois se unem para tentar encontrar o anticristo e evitar que o apocalipse aconteça.

  • Crítica:

    NOTA: 4,0 / 5,0

    Good Omens seria interessante logo de cara simplesmente pela quantidade enorme de talento que reúne na frente e por trás das telas — Neil Gaiman escreve todos os episódios, e Douglas Mackinnon (Doctor Who, Sherlock) os dirige. O elenco encabeçado por Michael Sheen e David Tennant abre as portas para uma leva de participações menores que vão de Jon Hamm como o Arcanjo Gabriel, Frances McDormand na voz de Deus e Benedict Cumberbatch emprestando sua voz a Satã. Mas a nova série limitada do Amazon Prime Video, que adapta uma das obras de fantasia mais celebradas das últimas três décadas, oferece uma gama tão variada de nuances e reflexões que defini-la por um único elemento ultrapassa o limite do reducionismo.

    Good Omens adapta o livro de Terry Pratchett e Neil Gaiman, “Belas Maldições: As justas e precisas profecias de Agnes Nutter, Bruxa”, e acompanha o demônio Crowley (Tennant) e o anjo Aziraphale (Sheen), que vivem na Terra há milênios e, por isso, acabaram se apegando ao local e tornando-se amigos. Quando eles percebem que suas missões consistem em basicamente “um tentar cancelar o outro”, decidem “não trabalhar” em dupla, até que são encarregados da missão de conduzirem o apocalipse. Mas não apenas eles não estão muito empolgados com a ideia, já que gostam do estilo de vida na Terra, como acabam perdendo o Anticristo quando uma confusão humana faz com que ele seja mandado para a família errada. Portanto, ao invés de ser criado como o filho do embaixador norte-americano, acaba vivendo como Adam Young (Sam Taylor Buck), um garotinho muito bem cuidado e sem a tormenta de demônios, levando uma vida pacífica no interior da Inglaterra.

    A ideia de um anjo e um demônio trabalhando juntos para impedir o fim do mundo poderia de imediato transmitir a ideia de cenário apocalíptico, remetendo a um background distópico e tomado pelo caos. Mas isso é exatamente o contrário do que a série entrega. Em seis episódios, Good Omens mostra que a obra se trata de uma reflexão não exatamente sobre o fim do mundo, mas sobre o que acontece no seu entorno, da burocracia divina às vontades humanas que entram no caminho de qualquer ordem pré-determinada. O envolvimento direto de Gaiman com o roteiro garante que a adaptação (um último desejo que Pratchett confessou ao amigo em 2015, antes de seu falecimento) mantenha os traços fiéis que prometem agradar aos fãs da obra literária, mas faz também com que todos os demais personagens secundários apenas girem na órbita de Crowley e Aziraphale. Por isso, as cenas em que eles não estão presentes acabam sendo um dos pontos fracos da série. Ainda que ancorados por excelentes atuações (a diretora de elenco Suzanne Smith fez um dos trabalhos mais impressionantes do ano reunindo este time), os personagens não são muito ajudados pelo roteiro, que os utiliza apenas como impulsionadores da história. Miranda Richardson e Michael McKean — que vivem respectivamente Madame Tracy e Shadwell — até tentam, mas seus personagens arranham apenas a superfície do que poderiam ser. Eles fazem o que o roteiro precisa que eles façam, porque é assim e pronto.

    Mesmo quando o CGI é extremamente exagerado e artificial, ou quando as perucas de Tennant não fazem o melhor trabalho em proporcionar a imersão na trama, o jogo entre os dois e o flerte que fica no meio do caminho entre um romance queer (idealizado pelos fãs dos livros há décadas) e uma forte amizade faz os episódios voarem. Mesmo quando está apagada sem Crowley ou Aziraphale em cena, Good Omens tem um grande debate a apresentar, seja porque atualiza as figuras dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse (dois dos quais são mulheres) e transforma a Peste em Poluição, seja porque mostra Adam aos poucos descobrindo os seus poderes e não sucubindo ao determinismo. Acima de qualquer outra coisa, aliás, o estudo sobre o determinismo é exatamente o motor da adaptação Trata-se de uma obra recheada de filosofia e de notas de rodapé complexas e passíveis de debate, e talvez seja justamente pelo esvaziamento destas notas que a série pode soar incompleta ou anticlimática para uma parcela do público.

    Ainda assim, o principal objetivo de Good Omens enquanto série é ser uma obra divertida. Em nenhum momento está em xeque a questão se Adam vai ou não sucumbir ao que estava pré-determinado, mas a todo momento é testado o limite da relação entre Crowley e Aziraphale — o subtexto gay é tão bem trabalhado e tão orgânico que ganha o primeiro plano sem nem mesmo tentar. O humor está sempre nas entrelinhas, na interpretação dos conceitos elaborados em torno da descendência de Agnes Nutter, de suas profecias e do comportamento errático de Gabriel, Shadwell e dos seres do inferno, e isso faz um contraponto exatamente com a direção de arte que deixa sempre às claras o que é bom, o que é ruim e o que se deve sentir em cada cena.

    No que se propõe a fazer, Good Omens se excede mesmo com as falhas em relação aos coadjuvantes, porque se calca em ótimas atuações, um roteiro que atende aos fãs mais apegados a detalhes e em protagonistas que dominam a cena com facilidade e ofuscam eventuais problemas. E, é claro, Fantasma que nos desculpe, mas Cão é um grande concorrente ao título de bom garoto do ano.

    Fonte: Adoro Cinema


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